Autor Tópico: [novo membro] A minha triste e vergonhosa história  (Lida 68 vezes)

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qyron

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[novo membro] A minha triste e vergonhosa história
« em: 03 de Agosto, 2018, 22:55:40 »
Espero que as razões para eu ter decidido tornar-me membro do fórum sejam óbvias pelo fim da leitura desta minha "apresentação". Deixo aqui a minha história, que é longa, cheia de erros estúpidos, atitudes censuráveis e burrices de garoto.

Como começou
A minha história com a FIAT começa na minha pré-adolescência. Apesar de fã confesso de uma fabricante concorrente, o meu pai viu-se obrigado a virar para esta casa por razões de orçamento, tendo o primeiro modelo que comprou sido um 127 de três portas, azul escuro, feito baço pelo sol. Desconheço a geração. Era um carrito usado mas relativamente bem tratado, de trabalhar nervoso, que parecia querer empinar sempre que o "puxavam". Foi nesse carro que me ficaram registadas na cabeça, de verdade, as primeiras viagens. Não havia estrada que aquele carro se recusasse a enfrentar e sempre com a mesma energia, estivesse cheio de gente ou carregado como um macho. Mas, tão depressa como apareceu, aquele 127 sumiu-se.

Seguiu-se um rol de FIAT Uno, qual deles o melhor: um branco, de três portas, asmático, que parecia pronto a morrer à primeira ameaça de se exigir um pouco mais dele. Depois um vermelho, em estado medonho, que passava mais tempo na oficina que em serviço, seguido de um azul, de cinco portas, tão pálido na cor como nas prestações, com bancos tão desconfortáveis que até numa estrada lisa nos fazia chocalhar os ossos; ainda apareceu outro, de uma cor indefinida entre o branco e um amarelo pálido tristonho, que o meu pai apelidava de "branco sujo". Para fechar esta rápida e furiosa sucessão de carros surgiu um último Uno, cinzento, com o verniz queimado, que rosnava quando lhe pisavam o acelerador e parecia querer comer quem se lhe pusesse à frente. Foi o único que conseguiu que eu não ficasse com uma má imagem absoluta deste modelo.

A continuação
O último Uno cedeu lugar a um Punto da primeira geração, um ELX, vermelho. Foi este que me fez pura e simplesmente detestar carros vermelhos. Mesmo acabado de rolar do stand, polido e brilhante, a cheirar a novo, o carro tinha uma cor doentia, feia. O meu pai conduzia e exibia aquele carro como se fosse a derradeira coqueluche mas depressa se desenganou quando este se revelou mais caprichoso que os que o tinham precedido. A derradeira "piada" que marcou este carro foi um alarme montado no revendedor, a título de compensação pelos constantes problemas elétricos que assediavam o carro, que teve um tilt, deixando o carro de bateria morta e vidros abertos. Numa noite chuvosa de Inverno. Mas depois de uma mudança de oficina e mais alguns milhares de escudos despendidos lá foi possível domar a fera e ele começou a portar-se como seria de esperar.

Não vou mentir: o carro nunca me conseguiu impressionar e nem sei como o mesmo modelo, hoje, noutras cores, me consegue atrair ainda. Mas para os vermelhos continuo a reservar um apelido muito pouco carinhoso.

O que me trouxe até aqui
Pouco depois de eu fazer a carta, chegou outro carro a casa. Por razões desnecessárias para esta história, o carro foi posto directamente no meu nome, com o meu pai a suportar todas as despesas e a fazer uso dele. Eu era condutor só de papel passado. Era, novamente, um Uno, mas diferente de todos os que já tinha visto. De um cinzento escuto profundo, ligeiramente metálico, atraiu-me o olhar desde o primeiro momento. Um motor pequeno mas muito nervoso, que mais tarde ouvi chamar FIRE, que rosnava e roncava quando o puxavam. Era, e ainda é, o meu querido FIAT Uno 1.1 55 IE SX.

Nenhum dos carros do meu pai é especialmente bem tratado mas este carrito sofreu mais do que aquilo que merecia. Pouco depois de ser comprado recebeu um auto rádio da moda, que um perito da matéria aconselhou a ancorar à barra de suporte do tablier com um cabo de aço do que é normalmente é usado para esticar nos varais da roupa. Custou-lhe ser vandalizado, uma consola partida, com a chauffage inutilizada, e a manete das mudanças rasgada. Como não havia interesse para mais, uma bola de golfe foi roscada na ponta da manete, a consola foi re-encaixada à bruta e aparafusada à força no seu lugar. Seguido disto, na única vez que peguei no carro, tive um acidente violento mas que não o inutilizou. A frente ficou desfeita mas o carro manteve a vontade de viver e como não havia dinheiro para o mandar embora teve de ser reparado e continuou connosco, sempre fiel, mas tornado uma "enxada".

Depois de umas quantas reviravoltas da vida, o meu pai voltou à marca dos seus sonhos e entregou-me o Uno, quase como se se estivesse a livrar de um bicho peçonhento. Como não era consciente do que fazia com o meu carro na altura, entregava-o de boa fé a profissionais que o meu pai me recomendava para fazer as manutenções e revisões necessárias. Até que voltei a ter um acidente.

O que deveria ter sido uma reparação simples: substituir o pára choques, trocar o capot e a grelha, tornou-se um circo de despesas. Revisão de travões, que estavam supostamente com problemas, revisão da centralina e sistema de injecção... Abri a carteira e paguei o bom e o belo mas o carro voltou para mim a trabalhar. Como pouco mais me interessava que isso na altura, não me ralei. Até que voltei a ter um susto, felizmente sem consequências: o carro adquiriu o vício de prender o acelerador - não o pedal - e disparava em aceleração sem pré aviso. Um toque no acelerador desprendia-o mas nunca se manifestou com um mecânico presente e, por isso, foi parar à pilha das "manias de condutor". Apesar disto, trabalhava, e como. Fiável, cheio de espírito, com comportamento quase de um desportivo com muito mais potência que aquela que nominalmente tem.

Depois a vida pregou-me uma partida amarga e foi aqui que lhe virei as costas e o abandonei. Forçado por responsabilidades familiares que me consumiam a amior parte do meu tempo, deixei-o ficar. Uma fuga elétrica que lhe secou a bateria e o deixou inerte atirou-o para uma berma de passeio onde os dias se somaram e se fizeram meses. Como havia outro carro pronto a usar, desprezei-o, dizendo para mim mesmo que "depois lhe mexia e o mandava arranjar". Os meses fizeram-se anos.

O aqui e agora
Um dia acordei mal disposto e fui vê-lo. Abri as portas, sentei-me nele. Senti-lhe o cheiro. Revivi muitos momentos que ele me deu, sozinho e com pessoas que já não tenho comigo. Ri e chorei dentro daquele carro, sozinho. Senti-o magoado, triste, mas ainda vivo. À espera. Arranjei-lhe uma bateria, liguei-a. Arrisquei dar à chave e ele trabalhou até queimar os últimos vapores que ainda estavam no depósito. Pneus novos, a bateria no lugar, e consegui tirá-lo para onde o vejo agora, "olhos nos olhos", todos os dias.

Decidi que o vou arrancar daquela morte lenta que o estava a consumir. E se foi a minha inacção que o deixou como está hoje, terão de ser as minhas mãos e esforço a repo-lo, em tudo o que me for possível, novamente em condições. Não sou mecânico mas não tenho medo de aprender e acredito de que se um homem é capaz, qualquer outro também é. O orçamento é curto e os "profissionais" que já lhe deitaram as mãos no passado atamancaram mais do que aquilo que realmente resolveram. Estou desconfiado de o entregar outra vez. O pouco que já descobri a meter o nariz em todos os cantos e recantos em que me consegui infiltrar revelaram coisas que não deviam estar como estão e que nunca foram, alegadamente, mexidas.

Preciso de ajuda, de quem sabe mais, de quem já passou por isto e se calhar muito mais e pior com o seu FIAT e que não desistiu dele. Espero estar no sítio certo.

Obrigado pela paciência e pelo tempo de quem leu isto até ao fim.
Se não nasceu inteiro, pode ser desmontado. E se foi feito por alguém, outro qualquer pode fazer o mesmo.

FIAT Uno IE 55 SX

KevinCego

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Re: [novo membro] A minha triste e vergonhosa história
« Responder #1 em: 04 de Agosto, 2018, 21:53:58 »
Muito bem vindo, adorei o relato, pela minha parte se precisares de algo que esteja ao meu alcance, apita
Punto Van TD70

qyron

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Re: [novo membro] A minha triste e vergonhosa história
« Responder #2 em: 05 de Agosto, 2018, 14:37:28 »
Obrigado.

Fá-lo-ei, assim que tiver fotos a documentar algumas coisas que me estão a fazer comichão no miolo.

Acho que se impõe que eu abra também um tópico novo, não sei se sobre restauro ou reparação, para haver acompanhamento do processo.
Se não nasceu inteiro, pode ser desmontado. E se foi feito por alguém, outro qualquer pode fazer o mesmo.

FIAT Uno IE 55 SX

KevinCego

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Re: [novo membro] A minha triste e vergonhosa história
« Responder #3 em: 06 de Agosto, 2018, 03:50:00 »
Acho que se enquadra num restauro
Punto Van TD70

qyron

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Re: [novo membro] A minha triste e vergonhosa história
« Responder #4 em: 06 de Agosto, 2018, 08:52:07 »
Hoje já faço umas fotos dele e já ponho aqui. Vou começar por abrir um tópico para os travões, que estão completamente mortos e têm uma coisas que me deixou desconfiado.
Se não nasceu inteiro, pode ser desmontado. E se foi feito por alguém, outro qualquer pode fazer o mesmo.

FIAT Uno IE 55 SX