"Na Ferrari, a relação não se esgota na venda, começa na entrega do modelo"
2013 ainda vai no início e já é um marco na história da italiana Ferrari - a fabricante de desportivos de luxo apresentou os melhores resultados anuais de sempre, foi considerada a insígnia mais poderosa do globo e acaba de lançar o muito aguardado LaFerrari. Em Portugal, este também é um ano de aceleração, sobretudo na área de marketing, explica ao OJE o diretor-geral, José Ribeiro Filipe.
De momento, só se fala no novo LaFerrari, que teve uma campanha com teasers na página da marca no Facebook, onde foram surgindo "mosaicos" com pequenos detalhes do modelo, até à apresentação em Genebra, o que criou um buzz maior em torno do mesmo.
Sim, este tipo de carros é lançado com cerca de dez de diferença, são o que de melhor se faz em termos tecnológicos e um emblema da marca. O último foi o Enzo (lançado em 2002), antes tinha sido o F50, precedido pelo F40. Têm produção limitada, com um valor acrescido e uma procura brutal, em que é feita uma seleção a quem são entregues. É um negócio muito forte.
Para a Ferrari.
Para quem compra, dado o reduzido número de exemplares. Daí o grande cuidado em vender estes modelos a pessoas já com grande currículo na marca.
Os hipercarros híbridos são um nicho ou cada vez mais uma aposta?
A Ferrari estará sempre na vanguarda das novas tecnologias. Mas esta é uma área com um ritmo muito acelerado. Se, de momento, apostamos neste modelo com dois motores, é porque consideramos que é a melhor solução. Se será a mesma aposta daqui a dois anos, só os engenheiros sabem.
Há preocupação na Ferrari com a parte ecológica na construção dos veículos?
Também é uma grande aposta, nos carros "limpos". Há um grande esforço para ter modelos cada vez mais amigos do ambiente, que se nota nos consumos de CO2 dos modelos, que caíram drasticamente no espaço de dois anos.
Mas nem só de carros vive a Ferrari: o merchandising, potenciado sobretudo pela F1, representa uma parte importante das receitas da marca.
Sim, a Ferrari entende que o marketing deve ser canalizado pela F1 - o melhor palco para mostrar toda a tecnologia desenvolvida pela marca, que depois é empregue nos modelos do dia a dia. O merchandising é uma área muito importante do negócio, que tem cada vez mais peso, alimentado pela F1. Começou com uma loja em frente à fábrica em Itália, hoje está em franca expansão, indo ficar com cerca de cerca de 600 m2. Depois passou-se para a presença estratégica em grandes aeroportos internacionais e, de seguida, em cidades emblemáticas.
Em Portugal ainda não há uma Ferrari Store.
É algo que tem de ser estudado. É uma área de negócio diferente. No merchandising, há dois tipos de negócio - as Ferrari Stores e os corners, que se situam dentro da concessão. Há uma maior aposta nas lojas. Em mercados como o português, onde não há um volume tão grande, é mais difícil. Em Madrid, por exemplo, foi agora inaugurada uma loja.
A marca também realiza eventos com os clientes.
Sim, é muito proativa junto dos clientes. Organizamos concentrações em Itália, um misto de passeio com circuito, em que pode levar a família ou amigos, e desfruta do seu Ferrari num ambiente descontraído, em locais que, de outra forma, não conheceria. São eventos muito bem organizados, com pessoas interessantes, de todo o mundo. E, por vezes, podem surgir oportunidades de negócios, porque há partilha de informação.
Os clássicos são outra área de negócio. A Ferrari, hoje, certifica os clássicos, a sua autenticidade, porque há alterações que podem ter sido feitas ao longo dos anos e não se saber se o carro é 100% original, sobretudo se se comprou em segunda mão. Fazemos os check ups e certificamos.
As ações são anuais?
Depende. As de que falei são anuais. Temos também cursos de condução - há uma escola, em que não se pode ir para o segundo ano sem passar pelo primeiro. É uma experiência enriquecedora, porque, muitas vezes, as pessoas não têm noção das potencialidades dos carros, não tanto em termos de velocidade, mas de comportamento. E estes cursos permitem, em situações controladas, fora de estrada e com profissionais, testá-los. Agora até já temos na neve, por causa do FF, que tem tração às quatro rodas (não permanente), em que não é uma ação só para o cliente, pode ir o casal.
A marca realiza eventos em Portugal ao longo do ano?
Fazemos test drives e alguns eventos, como almoços com os clientes. Aproveitamos mais a organização de Itália. Mas, este ano, vamos estar mais ativos: no verão, vamos aproveitar o Autódromo de Portimão, para onde os clientes podem levar o carro. Nestes momentos, tentamos envolver a família. E vamos continuar com os test drives.
Há um cliente-tipo da Ferrari em Portugal?
Os nossos clientes são pessoas muito ocupadas. Não há um estereótipo, são maioritariamente masculinos (se bem que o California e o FF também são direcionados para a família), entre os 35/50 anos, com uma grande paixão por automóveis.
Há quanto tempo está a Ferrari presente no País?
Desde 1999. Hoje somos líderes nas marcas desportivas de luxo. Temos a Ferrari Lisboa e a Ferrari Porto, em locais estratégicos, e que prestam um serviço completo ao cliente. Todos temos formação contínua, dos mecânicos aos comerciais (vamos à casa-mãe, em média, a cada trimestre).
No site, surge só a área do Porto.
Porque estamos a remodelar a presença portuguesa no site da marca, que faz parte da grande aposta de 2013 em Portugal: termos um marketing mais agressivo, onde se inclui o maior número de eventos, cuja agenda ainda não está fechada.
Em 2011, o CEO da marca na América do Norte, Marco Mattiacci, disse que os concessionários conheciam os 32 mil donos de Ferraris pelo nome próprio - há essa proximidade em Portugal?
Sim, temos um contacto permanente com os clientes, ao longo dos anos. A relação não se esgota na venda do carro, ao contrário das restantes marcas, começa na entrega do modelo. Há um serviço, um acompanhamento constante. As visitas à fábrica, as concentrações, os eventos desportivos, os cursos, os test drives, os almoços privados no concessionário. Partilhamos um bem, em que o cliente realiza o seu sonho, e até nos visita para falar das experiências com o carro.
Há uma região onde se vende mais no mercado português? Houve uma altura em que falava no Norte.
Talvez na década de 1980. Agora há maior concentração na zona Centro-Sul, na Grande Lisboa. Embora o Norte também seja forte.
O vermelho "cavallino rampante" ainda é a cor de eleição dos clientes portugueses?
Deixou de ter o peso que tinha. Se antigamente cerca de 95% dos modelos eram nessa cor, agora ronda os 30%. Hoje há modelos para o dia a dia, em que as cores são desportivas, mas mais sóbrias - pretos, cinzentos.
Quantos carros vendeu a Ferrari Portugal em 2012 por comparação com 2011. Qual foi a faturação?
Vendemos 14: oito 458 Italia, quatro California e 2 FF, a uma média de 320 mil euros cada (onde já se incluem cerca de 40 mil euros de extras), o que ronda os 4480 mil euros. Em 2011, vendemos 19 veículos. Trata-se de um segmento muito exclusivo. Os Ferraris dividem-se entre os V8, mais radiciais, que, em termos de vendas, são os volume makers, e os V12, ou Gran Turismo. Os mais vendidos são o 458 Italia, mais desportivo, e o California, um daily car.
A crise fez-se então sentir em 2012.
Acompanhamos o mercado, mas não de forma tão acentuada. E os números acabam por ser enviesados, porque as entregas são feitas, em média, cerca de um ano depois da encomenda. Basta lançar um modelo para disparar as vendas, os eventos também ajudam. Nesse aspeto, a Ferrari tem feito uma grande aposta, ao apresentar um modelo novo todos os anos (como o FF em 2011 e o F12 Berlinetta no final de 2012), o que demonstra dinamismo por parte da marca.
Esperam vender quantos este ano?
Prevemos vender 15 a 16 carros.
No total, existem quantos detentores de Ferrari em Portugal?
O nosso parque ativo situa-se acima dos 300.
O melhor ano de sempre do "cavallino rampante"
O desempenho da italiana Ferrari em 2012 foi o melhor de sempre nos 66 anos de história da fabricante de carros de luxo cujo símbolo é o "cavallino rampante". Os principais indicadores excederam os recordes de 2008. A companhia detida pela Fiat entregou 7318 veículos à rede de concessionários (mais 4,5% que em 2011), com receitas de 2433 mil milhões de euros (uma subida de 8% em termos homólogos) e um lucro líquido de quase 244 milhões (acelerando 17,8%).
Isto "apesar do cenário económico desfavorável em muitos países europeus, e distintamente hostil na Itália", afirmou o presidente, Luca di Montezemolo. No mercado interno, embora tenha tido um desempenho melhor que a média do setor (que registou uma derrapagem de 60% nas vendas em 2012), a Ferrari terminou o ano com 318 carros entregues nos concessionários, um decréscimo de 46% em relação a 2011.
A multinacional teve vendas recorde nos mercados norte-americano, chinês, alemão e britânico. Nos EUA e Canadá, ultrapassou pela primeira vez a marca das 2 mil unidades, com a entrega de 2058 carros (um aumento de 14,6%). A Grande China (inclui Hong Kong e Taiwan) manteve a posição de segundo maior mercado, com um recorde de 784 entregas (mais 4%), das quais quase 500 foram para a China.
O Japão, país onde a Ferrari tem uma presença sólida, regressou ao crescimento de dois dígitos (14,4%), com 302 automóveis.
Na Europa, as entregas na Grã-Bretanha dispararam 20,4% (673 unidades) e 17,4% na Suíça - considerado o mercado com a maior concentração de Ferraris do globo - com 357 modelos. A Alemanha, o terceiro maior mercado mundial da marca e o primeiro europeu, confirmou a posição, ao crescer 8,2%, com 750 veículos.
O Médio Oriente e África encomendaram 556 carros, o que significa um acréscimo de 4,5% em relação a 2011.
No sentido de potenciar a presença nos diferentes mercados, a Ferrari reorganizou a rede comercial no ano passado, dividindo-a em quatro centros de coordenação: América, Europa e Médio Oriente, Grande China, Extremo Oriente.
A margem operacional das atividades relacionadas com a marca - licencing, e-commerce, retalho -, que também foram reestruturadas, subiu 40%, ultrapassando os 50 milhões de euros. O licencing obteve um crescimento "muito impressionante", de 22%, enquanto as receitas de e-commerce aumentaram 31%, para 7 milhões de euros. A companhia tem apostado na presença nas redes sociais, tendo ultrapassado os 10 milhões de fãs no Facebook. O retalho cresceu 5%, graças, de acordo com a insígnia, a um novo conceito de design de interiores que está a ser alargado às atuais 50 lojas Ferrari.
A empresa declara ainda que fez "investimentos significativos" ao longo de 2012, incluindo 324,3 milhões de euros em investigação e desenvolvimento (face aos 280 milhões do exercício anterior).
A mais poderosa de 2013
Em fevereiro, a Ferrari foi considerada a marca mais poderosa do mundo em 2013 pela consultora Brand Finance (onde são tidos em conta aspetos como a receita por consumidor, margens de lucro, investimento em marketing e em publicidade).
A insígnia italiana destronou a americana Apple na pole position do ranking, ultrapassando gigantes como a Google, a Coca-Cola, a PwC ou a Hermès. Apesar de não poder competir com outras empresas globais em termos de dimensão, a companhia tem avaliação excelente no que diz respeito à lealdade e afeição pela marca. A Brand Finance afirma que a Ferrari é um caso particular na lista, por representar um pequeno nicho de veículos desportivos e ter um valor empresarial muito menor que outras insígnias.
LaExcelência
Após muita especulação, a Ferrari apresentou esta terça-feira, 5 de março, na 83.ª edição do Salão Automóvel de Genebra, o sucessor do Enzo - o LaFerrari. Nome que, de acordo com o presidente da construtora automóvel, Luca di Montezemolo, pretende transmitir o conceito de "máxima expressão daquilo que define a marca: excelência, em termos de inovação tecnológica, de performance, design visionário e o puro prazer de conduzir".
Com particularidades como o material-base, uma espécie de fibra de carbono desenvolvida para suportar situações extremas (utilizada, por exemplo, no fabrico de caças de combate ou naves espaciais), ou o chassis ser composto por quatro materiais leves e laminados à mão, o design do novo modelo, como em todos os outros da companhia também construídos em Maranello, explora a aerodinâmica ao máximo, numa aproximação aos bólides das corridas de Fórmula 1 (F1).
"Insanamente rápido", com uma performance "intergalática" - é como os especialistas do conhecido programa TopGear, do canal BBC, definem este superdesportivo. O motor V12 de 790 cavalos tem um motor-auxiliar elétrico que soma mais 160 HP à potência, o que perfaz 950 cavalos, atingindo 9250 rotações por minuto e uma velocidade máxima de 350 km/h. A multinacional declarou na apresentação que a máquina chega aos 100 Km/hora em menos de três segundos e aos 200 km/hora antes dos sete segundos, graças ao motor elétrico, que ajuda a turbinar o arranque, deixando o V12 livre para ganhar velocidade.
Mas o LaFerrari é mais que um supercarro híbrido. Este é o primeiro veículo de rua a ter o sistema Hy-Kers - tecnologia da F1 que aproveita a energia gerada pelas travagens para conferir mais potência. De acordo com a marca, esta ferramenta consegue reduzir as emissões de poluentes em até 40% e tem uma eficiência energética de 94%.
Numa edição limitada a 499 unidades e disponível em apenas três cores (com entregas a partir de dezembro deste ano), o LaFerrari destina-se aos colecionadores, referiu Luca di Montezemolo. Por 1,2 milhões de euros antes de impostos, bem pode destinar-se.
Clássicos, paixão com retorno
O Financial Times analisou uma série de ativos para determinar os que registaram maior crescimento nos últimos dez anos. Uma propriedade premium em Nova Iorque, EUA, aumentou o seu valor em 72%, enquanto património semelhante em Hong Kong escalou 220%, valor em linha com o desempenho de ativos de belas artes, selos ou moedas raras. Contudo, nenhum destes investimentos conseguiu chegar perto do retorno de 395% que atingem os carros clássicos. Estes, juntamente com o ouro, permanecem o mercado com maior crescimento em termos de retorno do investimento (ROI). No topo do pódio, encontram-se os Ferraris clássicos, que, nos últimos anos, ocupam com frequência as primeiras posições na lista dos 10 carros mais valiosos vendidos em leilão. Exemplo disso são os leilões de dois 250 Testa Rossa, em que um foi arrematado por mais de 12 milhões de dólares (9,2 milhões de euros) e outro pelo valor recorde de 16,4 milhões (12,5 milhões de euros). Esta tendência verifica-se em todos os Ferraris clássicos. Em 2003, um 250 GT Berlinetta de 1959 foi vendido por 1,20 milhões de dólares (922 mil euros), o que, comparado com um modelo semelhante vendido em 2012 por 6,71 milhões dólares (5,16 milhões de euros), representa um incremento de mais de 400%.
Fonte: Oje, por Armanda Alexandre